analogia

a peça é a vida.
o protagonista é, além de ator, autor do drama.
e o drama está justamente nessa separação,
autor/ator,
onde um começa, onde o outro termina.
o autor é essencialmente solitário. como todo autor.
ele vive da imaginação,
desenha a vida como lhe sugere a inspiração,
é uma pessoa de bastidor.
não vive. o ator é quem vive pelo primeiro.
ele protagoniza suas angústias,
suas emoções e vibrações,
suas vitórias ou derrotas.
o autor sonha. o ator vive tais idílios.
e nenhum dos dois consegue atingir uma existência plena, real.
nenhum dos dois é completamente nada.
tentam chegar o mais próximo possível,
mas nunca conseguem atingir o palpável.
porque o ator vive apenas o que o outro imaginou.
e o autor sabe que tudo não passa de uma farsa.
sua imaginação vai muito além de qualquer limite.
mas o ator tem suas limitações.
será que alguém consegue escapar do drama do protagonista?
ele, com certeza, não pode.
o ator que leva por dentro
nunca viverá situações extremas
como as sonhadas pelo autor.
ao menos não as identificará senão num futuro distante,
em forma de nostalgia.
só então poderá aceitar relações.
só então entenderá e respeitará
a admiração e aplausos do público.
até então, apenas gosta.
mas porquê não consegue identificar
o sentido de uma situação
quando esta se apresenta?
o autor responde que a culpa é da imaginação,
que voou muito longe novamente,
transformando qualquer situação real em insignificante.
o ator não é feliz.
e espera, desesperadamente, se sentir real.
real, normal, e com defeitos.
se o autor permitir.