entrei no edifício e fui direto ao setor de publicidade.
como sempre, meu coração bateu mais forte ao passar pela recepção. ela nem me viu.
cumprimentei o cara da expedição. antes mesmo que eu pedisse, colocou a coleção de jornais sobre o balcão. já estava se acostumando comigo.
enquanto folheava os exemplares antigos a procura de matérias para meu arquivo, arriscava vez ou outra uma olhadela à recepção, através da imensa porta de vidro.
ela permanecia absorta em seu trabalho, até levantar os olhos e surpreender-me a admirá-la. e sorriu.
senti-me como um garoto travesso pego "com a mão na massa", mas foi o suficiente para que criasse coragem.
requisitei os exemplares necessários, paguei, e fui buscá-los no prédio em frente, do outro lado da rua, voltando depois para apanhar minha bolsa, que eu havia esquecido como pretexto para retornar.
ela estava só na recepção. peguei um dos folhetos de propaganda do curso de modelos que eu ministrava e estendi-o por sobre a mesa. ela sorriu e disse:
-
gracias, mas eu já tenho. é a quarta vez que você me deixa este papelzinho.
nada mau, ela se lembrava de mim:
- e ainda não se animou a fazer o curso?
- talvez fosse interessante, mas não tenho tempo.
- no tempo damos um jeitinho, abro um horário diferente só pra você...
ela ficou me olhando, séria. pensei que iria me mandar embora, como já o fizera antes, ou perder a paciência, mas perguntou apenas:
- porquê eu?
era a deixa que eu precisava. expliquei-lhe então os meus motivos, o que fazia ali, num país que mal conhecia, sem tradição alguma no meu negócio. o curso para mim não era muito interessante financeiramente, a única finalidade do mesmo era descobrir novas modelos, um perfil diferente, mas "ela era a garota mais simpática e mais bonita e mais charmosa e interessante que eu conhecera naquele país e que ela tinha um jeitinho brasileiro e... "
parei e fitei-a. ela continuava me olhando, calada. por um momento fiquei surpreso, sem entender, esta tática sempre funcionava. não desanimei, retomei aquele ar conspirativo e tentei outras formas, insinuei que ela poderia, inclusive, fazer sucesso no brasil, mas ela continuou calada. apenas sorria. fiquei meio sem jeito, depois nervoso, e por fim me rendi:
- jantar sábado à noite? - perguntei baixinho
e ela continuou ali, calada e sorrindo. por um momento desisti, aceitando a derrota, mas quando me preparava para sair, ela levantou a mão e alcançou um bloco de notas. começou a rabiscar alguma coisa e notei que, como eu, era canhota.
ainda sem dizer nada, passou-me o pedaço de papel, onde estava escrito:
BETSI
DR WEISS 1098
FONO 205021
fiquei parado, fitando o papel em minha mão, sem acreditar.
foi ela quem rompeu o silêncio:
- 9 horas está bom?
***
- imagine se estou louca!
- é uma emergência, jackie! só por esta noite...
- pelo menos você tem carteira de habilitação?
- claro que tenho! - menti.
por fim ela me entregou as chaves. o problema da condução estava resolvido.
deixei jackie na casa dela, agradeci, e fui o mais rápido que pude para a pousada onde vivia.
convenci nelly, a proprietária, a me passar com esmero a calça nova de linho que nunca fora usada, emprestei um
blaser branco do mirandinha, uma camisa de seda do hermán e 500 dólares do hugo.
me arrumei, usei a colônia importada de andrés e saí, sem entender porque todos me olhavam com aquelas caras azedas.
abasteci o carro no posto da esquina, passei num copetín para comprar cigarros e aproveitei para tomar uma dose de uísque. comprei também uma goma de mascar para disfarçar o uísque, mas precisei tomar outra dose pra tirar aquele gosto adocicado.
a lua estava quase cheia e, a despeito do intenso frio do final de outono, a noite era clara e agradável. seria um sábado maravilhoso.
***
era um apartamento pequeno e simples, mas muito aconchegante.
betsi já estava pronta. serviu-me um uísque, conversamos um pouco e saímos.
- tenho que te confessar uma coisa, bet. não conheço nenhum restaurante interessante, além do amstel. ainda não tive oportunidade de sair aqui.
- este está ótimo, mas não é o mais barato que conheço.
fomos assim mesmo. o
mâitre escolheu uma mesa discreta, ao fundo, e acendeu as velas. depois de eleger a comida, nos descontraímos um pouco. ela realmente não precisava do curso de modelo ou de
buenas costumbres. eu ficava mais encantado a cada minuto. e aos poucos fomos nos tornando mais confiantes, graças à empatia descoberta e ao
champagne, naturalmente.
- da próxima vez vamos a um lugar menos formal,
¿que te parece?- eu acho ótimo. e um alívio! - respondi.
- ahn?
- vou te confessar outra coisa: graças a esse jantar vou ter que passar uma semana comendo cachorro quente. e por este
champagne terei que adiar minha visita ao brasil, que estava programada para a próxima sexta-feira.
ela me olhou com cara de espanto, mas logo caímos na gargalhada. depois voltou a ficar séria. me deu um beijo suave e disse:
- acho que terei que aprender a cozinhar...
- eu te ensino, sou ótimo cozinheiro.
- mesmo? e o que é que eu vou aprender?
- café solúvel, abrir enlatados, ovos cozidos e arroz - mas só aqueles de saquinho, semi-prontos.
- poxa, você é o melhor cozinheiro do mundo! é isso que ensina no curso?
fui fisgado. sem me queixar. dali seguimos para uma discoteca, onde dançamos um pouco, e passamos numa sorveteria, na quinta avenida. paramos em frente ao seu prédio e ela ficou em silêncio novamente. enquanto eu abria sua porta, perguntou-me:
- como você conhecia o amstel, se ainda não teve oportunidade de sair aqui?
- sou amigo do
mâitre.
- não colou.
- brincadeira, a academia onde faço o curso fica ao lado. e é lá que realizamos as aulas práticas de etiqueta à mesa. mas durante o dia.
acompanhei-a até a entrada do edifício. ela perguntou:
- o que acha de conhecer a cozinha onde vai me ensinar?
- tenho que te confessar mais uma coisinha: estou me apaixonando por você.
- suas confissões me encantam!
***
a manhã estava bastante fria e totalmente encoberta pelo nevoeiro, mas não me incomodou. ao chegar em casa, encontrei jackie furiosa, me esperando do lado de fora. quase desmaiou de alívio ao ver-me.
- poxa, você está vivo! - disse, dando a volta por todo o carro. e completou:
- e meu carro está inteiro...
nem entrei em casa. saímos juntos para um café, mas não foi fácil encontrar um local aberto naquela fria manhã de domingo. por fim, vimos um copetín próximo à plaza de armas.
ao terminarmos o café, jackie se mandou, sua fúria retornando porque eu não tirava os olhos da corrida de fórmula um na tevê, enquanto ela me enchia de perguntas sobre a noite passada, sem obter respostas.
os dois brasileiros ficaram fora da prova e perdi o interesse. paguei a conta e sai do bar. o sol resolveu aparecer e voltei caminhando para a pousada, com o blaser do mirandinha no ombro, sobre a camisa de seda do hermán, o perfume agora vago da colônia do andrés, misturado ao de betsi. somente os dólares do hugo não voltaram comigo.
ao chegar, havia um recado telefônico:
" comprei os enlatados e o arroz. o uísque dá menos trabalho que café. creio que este vai ser o melhor jantar da minha vida. mas vem logo, a gente tem muita coisa pra preparar ... "
desliguei a secretária eletrônica, liguei o rádio bem baixinho, coloquei o despertador para as 15 horas e um "não perturbe" na maçaneta.
não demorei muito a entrar num sono profundo, dando razão a richard bach:
"nada de bom é milagre, nada de lindo é um sonho".
tudo depende da intensidade do seu desejo. e do seu empenho.
(1987)