o parque

caminhava à esmo, num local que a princípio lhe pareceu deserto, mas que gradativamente seus sentidos captaram ser cheio de vida, até que se deu conta tratar-se de um parque, não aqueles parques cheios de brinquedos e coisas elétricas e barulhentas, apenas um local de muito verde, uma "rest area" com alguns balanços e gangorras na grama, mais ao longe, voltados para um grande círculo de areia onde crianças caíam rindo, gritando de prazer, enquanto as mães assistiam indiferentes, ou sorriam, ou apenas folheavam uma revista.
havia uma minúscula lanchonete a cerca de 100 mts de onde se encontrava, ao lado do círculo de areia, com algumas mesas, todas desocupadas. dirigiu-se para lá.
ele não sabia como havia chegado até ali, apenas que andava sem direção, como de costume, mas nunca havia visto aquele parque antes, embora caminhasse sempre por aquela região.
ao passar pelas mesas, teve a impressão de ver algo ou alguém familiar. parou e voltou-se, forçando a mente, até identificar um sorriso que jamais imaginou rever.
ela vinha em sua direção. após um instante, que lhe pareceu longo, aproximou-se também.
ambos sorriram e ela fez menção de abraçá-lo. foi quando ele percebeu a barriguinha saliente da amiga.

era assim mesmo que se lembrava dela: os cabelos muito claros, lisos e escorridos, quase longos, o sorriso grande e espontâneo como os dentes que descobria, o rosto belo e harmonioso, o corpo invejável e bem proporcionado semi-oculto na saliência da gravidez.
a última vez que a vira - há quantos anos? - ela estava exatamente assim, como agora, como se houvesse estacionado, ignorado o tempo.

a princípio temeu uma aproximação informal, mas ela mostrou-se bastante espontânea e genuinamente feliz em vê-lo, encorajando-o. ele perguntou-lhe se aquela protuberância ainda era o resultado daquele espermatozóide perdido de anos atrás e ela riu, dizendo que alguns outros haviam se perdido - ou encontrado o caminho certo - desde então. viu então as crianças que a rodeavam e pensou que talvez ela fosse feliz afinal, apesar de achar que, na época, quando o deixou sozinho nos estados unidos, trazendo de volta uma barriguinha idêntica, ela estaria jogando sua vida pela janela.
não que achasse - conhecendo seu temperamento, que ela pudesse ser feliz e realizada com todas aquelas crianças ao redor, mas dando um desconto pelo fato de ele próprio não se sentir tão bem com toda a sua liberdade e solidão consequente.

lembrou-se novamente daquela última vez...
na verdade eles já não tinham tanto contato então, algum elo se rompera na tomada silenciosa de posições. ele já sabia que ela estava grávida e decidira casar-se com um antigo namorado, colega de escola de ambos, mesmo antes de desembarcar no brasil, e pensou que era a segunda vez que ela jogava os sonhos pela janela.

a primeira foi quando recusou-se a disputar o título, merecido, de princesa do colégio. o título ficou com a namorada dele de então. ele era o presidente do conselho de classes e namorava a garota mais cobiçada de todo o colégio. quando a amiga recusou o título, porém, começou a questionar, não sabia o porquê, se realmente namorava a melhor garota do colégio. e passou a ignorar, maltratar, agredir verbalmente a princesa eleita.
e pensava o tempo todo na amiga.

deixou a princesa. deixou o conselho de classes. e logo depois deixou também o colégio e o país, embarcando exatos dois dias após a amiga que recusara o título, e que estava agora à sua frente. olhou em volta, em direção à areia, tentando saber qual era a criança resultado daquele tempo distante, mas logo desistiu, sabendo que isso não teria a menor importância agora.

deu um abraço na amiga e afastou-se rapidamente, com seus medos e idéias hostis, antes que começasse a questionar quem havia perdido os sonhos realmente...

"ela não devia ter recusado aquele título", pensou, enquanto saía do parque rumo ao frio da manhã, com a inoportuna lembrança do "noturno", de menotti del picchia:

"fundir-se na sombra / negativo de si mesmo / talvez em outros / o eco dos frustrados sonhos..."