o sonho

17 de agosto, década de 80. são paulo, brasil.
era um dia, por alguma razão, bastante corrido. sempre fico excitado em dias movimentados. lembro-me que não havia toalha no banheiro da recepção e a governanta pediu-me para subir até o cassino e encontrar-me com ela lá, onde me daria uma.
poucas vezes estive no cassino do hotel e acho que foi isso que me deixou excitado. eu deveria bater na porta e aguardar, mas entrei direto. talvez encontrasse lá aquele amigo contrabandista que tinha algo a ver com o referido espaço. ele sempre tinha algo a ver com esse tipo de espaço. e ser amigo dele era uma questão de prestígio - eu pensava. acho que ao abrir a porta do 'living' repentinamente interrompi uma reunião importante, pois todas as pessoas em volta da grande mesa retangular, que não eram muitas, pararam de falar e ficaram olhando para mim. um garçon ou guarda-costas se aproximou com cara de desagrado polido e eu perguntei pela governanta, mas ela não havia estado lá. na saída encontrei repórteres e muitas pessoas que provavelmente estavam lá para ver alguém famoso, mas eu não vira ninguém famoso lá dentro. apareceram então duas crianças rodeadas por várias pessoas, que por sua vez foram rodeadas pelos que esperavam e começaram a ser fotografadas e filmadas e ovacionadas e eu tive a impressão de tratar-se de uma dupla infantil internacional que iria realizar alguns shows em são paulo. havia outra pessoa, já maior, que passou a se sobressair e monopolizar as atenções e deduzi que não se tratava da dupla internacional, mas sim de um trio paulista que cantava músicas infanto-juvenis. fiquei por ali e sentei-me numa cadeira com rodinhas e fiquei impulsionando-me para lá e para cá e logo depois fui imitado por outras pessoas. uma garota que eu conhecia da adolescência, no interior, vinha em minha direção com as pernas esticadas no ar e sua cadeira enroscou-se na minha e suas pernas ficaram esticadas sobre as minhas. alguém nos incitava do lado de fora e continuamos a girar assim e eu sentia um tremor por estar tão próximo daquela gatinha linda que não falava nada e ficava sorrindo olhando pra mim e percebi que ela também tremia, suas pernas em contato com as minhas, suas coxas sobre as minhas e isso me encorajou e continuei normalmente e com segurança. íamos de um lado para outro com a cadeira, quase trombando em vários pontos, numa tentativa de mostrar minha perícia como piloto de cadeiras. depois houve um desafio e todos começaram a sair em suas cadeiras e eu e a gatinha saimos juntos, ela sentada quase deitada no meu colo, escolhi não sei porque um caminho cheio de obstáculos, um corredor que estava com várias partes apenas na infra-estrutura, blocos de cimento com as artérias/arames expostos e nós conversávamos, não me lembro o quê, num jogo de paquera mas já conscientes - embora eu fosse inseguro, de que permaneceríamos juntos. quando saimos dali já estávamos de bicicleta e paramos numa "grossery" para comprar alguma coisa. ela foi pinçando vários objetos aqui e ali e depois perguntou, "é só assinar?", e assinou uma folha num caderno que o dono do local lhe estendeu e eu ficava só olhando pensando que tinha pouco 'trident' e não podia correr o risco de ficar com mau-hálito então pedi um, daqueles com embalagem preta e vermelha que não sei se existem, mas custava 2001 cruzados e isso me chocou. o dono me disse que faria em três vezes e aceitava cheques, mas polidamente eu disse que não tinha dinheiro suficiente e ficava para a próxima, lembrando-me de que era menor de idade e que nem tinha conta em banco e rindo-me por dentro do chiclé a prestação. minha amiga observava tudo e fiquei imaginando de onde ela tiraria aquele dinheiro todo, já que comprara muitas coisas sem nem olhar o preço mas eu senti que talvez eu é que estivesse novamente totalmente alienado e sem noção de valores, como acontecia sempre que eu passava uma temporada fora do país. ela foi buscar a bicicleta que estava a uns 50 mts no meio da quadra, estacionada, com crianças em volta e eu visualizei então com prazer e com algum receio como é que seria daí para a frente, mas o telefone me acordou e eu fiquei feliz pois acho que não quero outra decepção, nem mesmo em sonho...